21/Março/2004
Papo com Beto Mendes

Em fevereiro fiz uma entrevista com o Beto Mendes, onde ele falava de toda a motivação que o levou a montar o Ferrari Kart e de seus planos para o futuro.

Ainda não havia enviado a todos esta entrevista por que ele havia pedido para segurar até estarmos mais próximos da inauguração. Por isso, algumas das respostas estão um pouco desatualizadas, mas vou mantê-las assim mesmo em nome da autenticidade.

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EDU: Beto, como foi que surgiu a idéia de montar um novo kart indoor em Brasília?

Beto Mendes: Na realidade, desde 1996. Ou seja, desde a época da febre de indoor que eu aventei a possibilidade de montar um ou comprar um dos que já estavam montados. Na época cheguei até negociar com o Carrera, mas não deu certo. Passou aquela febre, foram fechando quase todos os que tinham por aí, mas eu continuei com essa idéia fixa de montar um indoor. Muito pelo gosto que tenho pelo kartismo, automobilismo, etc. Mas também pela falta de concorrência, que levou que determinadas situações acontecessem nestes indoors, como, por exemplo, karts sem manutenção alguma. Você é obrigado a conviver com isto ou você simplesmente abandona. Como eu não estava disposto a abandonar, tentei de alguma forma montar um indoor. Estudei vários locais em Brasília, como o Setor de Indústrias Gráficas, Setor Bancário Norte, MSPW, Pontão... Entre essas possibilidades surgiu inclusive o Alpino’s. Pensei em revitalizar o Alpino’s, que na realidade foi o primeiro indoor entre aspas de Brasília... Conversei com o cara do Alpino’s, tentei todas as possibilidades...

Só que ali ia ter que cortar muita árvore, né...

Até que não! Cheguei a fazer um estudo e a conclusão foi que precisaria apenas cortar uma única árvore. Essa realmente estava perigosa. O resto bastava ter proteção de pneus em volta.

Mas ali não sujaria demasiadamente a pista?

É, aí eu teria que pegar os galhos que estão voltados para o lado da pista e cortar todos... mas sujaria de qualquer forma e se fosse para começar às 6 horas, teria que varrer a pista a partir das 4 da tarde. Mas era uma possibilidade. Na verdade sou radicalmente contra um indoor na concepção da palavra, em ambiente fechado... eu jamais montaria um negócio desses dentro de um galpão!!!

É, kart em ambiente fechado é duro de agüentar!!

Não pelo ambiente fechado em si. O que acontece é que você nunca vai ter um ambiente fechado do tamanho que eu acho que seja o mínimo necessário para funcionar um indoor. Se fosse dentro do pavilhão do Parque da Cidade,...aí sim. O que acho ruim em indoors fechados é que são muito pequenos. Os indoors de Brasília quebraram, sem exceção, foi exatamente por terem aquelas pistinhas ridículas que não tem como você desenvolver um bom trabalho no kartismo. Resumindo, estudei vários locais em Brasília e sempre com a idéia fixa de montar um indoor, que era para unir o útil ao agradável. Eu queria ter um negócio que eu gosto de fazer, e montar esse negócio com a visão de um cara que vive no automobilismo, diferentemente daqueles que exploram apenas comercialmente. Eu gosto disso. Saio da minha empresa as sete, oito horas da noite e fico até às dez no kartódromo porque eu gosto. Agora, se fosse ao contrário eu não iria não!

Como foi que você chegou ao aluguel do Waltinho Ferrari?

Em abril de 2003 fiz o primeiro contato com o Ruiter na intenção de pegar esse kartódromo aqui. Levei seis meses pra conseguir concretizar o negócio, que só saiu pela ajuda do Pietro. Quando já estava para desistir, marcamos uma reunião com o Geraldo Piquet e logo consegui fechar tudo, inclusive com a assinatura do contrato. O mais importante daqui é que eu tenho uma pista formada, que é o mais caro na montagem de um kartódromo.

Você fala do aluguel do imóvel?

Não, pra você montar um indoor, o caro é você construir a pista seja onde for. Por exemplo, se você pegar um ou dois lotes ali no Setor de Indústrias Gráficas, que só tem é mato, você teria que preparar o terreno e colocar asfalto, concreto ou seja lá o que for, e isso é muito caro. Aqui eu já peguei uma pista que pode não ser a ideal, mas eu estou com a pista pronta e esse gasto eu não tive. É claro que eu quero retirar todo o investimento que estou fazendo, mas quero também que o kartódromo continue com toda a movimentação que ele sempre teve. E quero mais. Quero movimentar esse espaço, não apenas com o indoor, mas com todos os acontecimentos típicos de um kartódromo, público ou privado... vamos fazer corrida de 125, Fórmula 400, cadete, moto e tudo o que pudermos fazer. Nos dias de semana de dia funciona o kartódromo normalmente e a partir das seis da tarde abre-se o indoor, aproveitando um espaço que não era utilizado à noite.

Beto, o que nós, clientes de kart indoor, podemos esperar do Ferrari Kart que a gente não vai encontrar na concorrência?

Basicamente temos três diferenciais. Dois são físicos e notórios. Primeiramente usaremos a parte de uma pista homologada pela CBA, com dimensões de pista profissional. Apesar de ter nascido em um estacionamento, ela foi projetada pelo José Alexandre com largura, zebras e variantes, para ser uma pista profissional e permitir provas oficiais. Exatamente devido a termos uma pista como esta, nossos karts terão um motor de 8HP, mais potente e mais rápido do que o usado na concorrência, sem qualquer problema de segurança. O terceiro diferencial será a parte comercial. O grande cliente, como o seu grupo, na verdade trabalha em grande parte para mim. Se você passa uma tarde ligando para os seus amigos, "vamos lá no Ferrari hoje", junta a turma e traz para cá, você tá trabalhando para mim, concorda? Você está fazendo marketing para mim. Então eu acho que não se pode tratar uma equipe com um campeonato fechado da mesma forma que se trata uma pessoa que vem esporadicamente. Acho que esse cliente é muito pouco valorizado pela concorrência. Então, teremos preço e tratamento diferenciado. Pretendo ter um preço menor do que o da concorrência, principalmente nos dias de semana. Pretendemos iniciar com R$35 no dia de semana e R$40 no final de semana. Além disso, pretendo incentivar o consumo das pessoas que gostam de andar de kart, que vem aqui para andar de kart.

Como seria isso?

Por exemplo, se o cara andar uma bateria pagará um preço; se andar duas pagará um preço menor; se andar três menos ainda e assim vai até ele não pagar nada. Isso num mesmo dia, porém dentro de um mês teremos uma coisa parecida. Por exemplo, teremos algo do tipo: a cada cinco baterias num mês, ganha-se uma. Pretendo fazer um plano de fidelização com relação a preço. Porque kart é um esporte de elite... isso aqui é uma brincadeira de elite... é uma coisa cara. Por outro lado, é difícil a pessoa chegar aqui e não se apaixonar pelo kartismo. Então ela corre uma vez e fica doida pra correr outra, mas não vai encontrar qualquer incentivo para que isso aconteça na concorrência. Como já disse, nós pretendemos ter preços diferenciados para estimular o piloto a correr mais de uma vez.

E para a gurizada?

O nosso mini fórmula será do tipo cadete. Teremos karts cadetes com motor de 2,5 HP justamente para que o menino ande igual ao pai. Não adianta ele ver o pai andando em um kart e, quando ele vai para a pista, colocam ele num trambolho com um cara sentado em cima, dirigindo para ele. Não é essa a idéia. Aqui nós temos condição, pela largura e segurança da pista, de fornecer um kart cadete com um motorzinho de 2,5... não sei se será o ideal e não sei se vai ficar potente demais. Se ficar é só você limitar a potência e não tem problema algum. O importante é termos uma velocidade segura para o menino ir sozinho. E se bater no pneu, aí vai lá e tira. A idéia é dar à criança uma experiência semelhante a do seu pai.

E para os mais experientes?

Não agora, mas mais adiante, pensamos em criar uma categoria especial, não sei se de 11 ou até de 13 HP. Mas aí já não é indoor. Não adianta a pessoa chegar aqui e falar "eu quero andar de 13". Não é assim! Teremos um quadro com os tempos recordes para a pista e se o cara estiver rodando em condições que comprovem sua competência como piloto, aí essa pessoa vai ter condições de andar em um kart de 11 ou 13 HP.

Mas isso aí é futuro... é plano para o futuro!

Como aqui é tudo novo, eu preciso enxergar como as coisas vão se comportar. Como é que vai ser esta pista com 10, com 12, com 18 pilotos. Eu tenho hoje 18 karts, mas talvez essa pista fique emocionante, legal com a bateria de 20. Aí teria que ter 25 karts para ter karts de reserva. Já vi uma corrida com 72 karts lá na Granja Viana... pô, é outra historia!! Tudo pra mim é novo... hoje, tudo pra mim é experiência e por isso eu vou contar muito com ajuda de vocês. É uma coisa que eu quero ter bem grande no site e na entrada do briefing: SUGESTÕES!! Vai ser um favor muito grande! Vou realmente pedir às pessoas críticas e sugestões.

É bom saber disso, porque sugestão foi o que até agora ninguém deu pra concorrência, né!!! (risos)

Só sugestão em demasia!!

Quando você tá prevendo a inauguração do Ferrari Kart? Se São Pedro deixar, é claro!!

Pô, o problema é exatamente esse!! A primeira previsão de inauguração era no final de janeiro... aí com todos os atrasos passamos para o final de fevereiro, mas, devido à chuva, eu particularmente já estou achando que só vamos inaugurar lá pra meados de março. Essa data de final de fevereiro, início de março, que era a data que eu estava espalhando pro pessoal, acho que não vai dar pra cumprir.

O que ainda está faltando?

Essa semana e na semana que vem, estaremos trabalhando na torre de cronometragem, no sistema de cronometragem e no semáforo. Os karts já estão 80% montados. O que está mais atrasado é o restaurante.

Você tá pensando em fazer um campeonato interno nos moldes da concorrência? Como ele vai ser montado? Como é que você vai dividir as categorias?

Aqui no Ferrari Kart vamos dividir por peso, da mesma forma que a concorrência, mas trabalharemos também com lastro. Não para baterias normais, do dia a dia, mas para o nosso campeonato e nos campeonatos de grupo, caso o grupo se interesse. Penso em diminuir o número de categorias, igualando o peso na base do lastro, para termos um grid maior e dar maior competitividade e emoção. Mas vão ser vocês que vão ajudar nessa definição... eu garanto que não vou impor nada, nem vou fazer do meu jeito, vamos fazer do jeito que a maioria achar melhor.

A pista vai ter qual a extensão?

Originalmente ela tem 1.050 metros. Devemos cortar ali no meio do Esse de alta e como essa parte daqui é mais sinuosa, acredito que a pista vai ter de 650 a 700 metros. Ainda não medi, mas por uma simulação que fiz pelo computador em cima do desenho da pista acho que vai dar mais ou menos isso.

Tô achando muito... talvez uns 600 metros, mas não sei se vai chegar a 700 metros não! A pista vai permitir variações?

Claro!! Inclusive tenho varias variações já projetadas pra gente testar. Já tenho na cabeça até a pista que nós vamos inaugurar, porque dentro das que eu usei foi a que gostei mais. Acho que o pessoal vai gostar.

Uma coisa que quem tá de fora já percebeu é que tem muito mais ponto de ultrapassagem do que qualquer outro circuito indoor daqui de Brasília.

Não tenha a menor dúvida!! Vai ser emocionante ver uma corrida parelha nesta pista.

Vamos poder fazer "test drive"?

Vai ter toda uma movimentação antes da estréia para o pessoal que tem campeonato próprio. Vocês serão convidados para testarem e dar opiniões e sugestões. Quando eu for inaugurar eu já terei uma carga de testes e de sugestões pra poder tentar fazer o melhor para os futuros clientes.

E a direção de prova vai permitir aquele festival de totós, fazendo vista grossa, como existe na concorrência? Vai ser sério com "ç" ou com "s" maiúsculo?

No que depender de mim vai ser sério. Mas aí eu vou defender a concorrência. Pessoalmente não acho que exista esse festival de totós porque eles sejam coniventes ou porque o diretor de prova seja um incompetente. Se você parte do princípio que uma pista tem 700 metros e que o diretor de prova é um só para tomar conta de 15 pilotos... É impossível um diretor de prova acompanhar tudo o que acontece na corrida.

Eu não tenho a menor dúvida disso que você falou. Mas que existe na concorrência vista grossa com determinadas coisas ou com determinados pilotos, ah Beto, tem sim!! Por exemplo, na própria Corrida dos Campeões do Carrera, um certo piloto, que vou omitir o nome, depois de não conseguir ultrapassar o Felipe Neira no braço, simplesmente encestou o Felipe na vista do diretor de prova que deu uma mera advertência. O Felipe estava em terceiro e a corrida dele acabou ali. Poderia ter ganhado um pódio, mas perdeu tudo. Isso se dá apenas por que esse tipo de prática é lugar comum e o piloto tem a certeza da impunidade.

Pra evitar isso estamos tentando fazer da forma que se faz na 400 ou na 125. Na concorrência não existem bandeirinhas, mas empurradores de kart. Há uma deficiência extrema, não na direção de prova volto a repetir, mas nos bandeirinhas, que não sabem absolutamente nada, que não tem noção de porra nenhuma. Penso em ter bandeirinhas melhor preparados, trabalhando com rádio e auxiliando o diretor de prova. Desta forma, todos os bandeirinhas também passam a ser fiscais da direção. Não terão autonomia pra fazer nada, mas comunicarão ao diretor "olha o kart 11, está dando totó no kart tal". Aí o diretor lá de cima passa a prestar atenção pra ver o que está acontecendo e dar a punição se for o caso.

Fico feliz eu ouvir isso, Beto!

Mas tem outra coisa, é impossível um diretor de prova, seja lá quem for, conseguir agradar a todo mundo. Garanto que dentro do campeonato o rigor vai ser total e absoluto. Mesmo na 400, com todo o rigor, acaba a corrida e você vê todo mundo xingando o pobre do Martins. É impossível um diretor de prova agradar a todo mundo.

Não tenho a menor dúvida! Mas se você está dizendo que vai ser rigoroso, é exatamente isso que a gente está pedindo: ser rigoroso!! Mas não com apenas alguns, com todos!!

Certeza! Com toda certeza!! Sendo rigoroso eu estarei defendendo o meu lado. Se você aceitar aquele festival de porrada, como acontece por aí... você está destruindo o patrimônio dos outros... sou radicalmente contra isto!!

Eu acho que se você estabelece um determinado limite e diz "olha, cara, as regras são essas", o pessoal se adapta à regra. Se você amplia esses limites, o camarada vai trabalhar em cima disto, está entendendo? Se você é mais permissível, aceitando batidas, tótós, seja lá o que mais, essa vai ser a regra. Em um indoor que fui no Uruguai, na hora que o sujeito deu o segundo totó em um piloto que estava na frente, ele tomou não só uma advertência, como um esporro do dono do indoor. Se vocês forem mais rigorosos, estarão defendendo não apenas o patrimônio, mas colaborando para que todo mundo passe a correr mais "pianinho". Mudando de assunto, vamos ter alguma promoção de inauguração? Alguma coisa que chacoalhe Brasília e deixe os três indoors daí vazios?

Nem sabia que tinha três por aqui? Você está contando com o Tagua Kart?

Se é que a gente pode chamar aquilo de indoor, né.

Acho que o público de lá é diverso do daqui. A minha idéia da inauguração é fazer um dia para convidados. Ou seja, vou convidar 40 ou 50 pessoas e dependendo da quantidade de pessoas presentes fazer 2, 3, 4 baterias. Essas baterias de inauguração servirão para a formação do quadro de tempos. Serão pessoas que já tem experiência de kart... que já andam de kart nas diversas categorias... quero pegar desde menino levinho até o pesadão para montarmos o quadro de tempo. Isso vai servir até para incentivar o piloto novato ou experiente a tentar bater aqueles tempos. Esse quadro vai servir de referência para todos. Pretendo chamar pessoas conhecidas no kartismo, como Nelsinho Piquet, Vítor Ramos, Eduardo Broka... chamar esse pessoal, mas também chamar os Diogo Broka, os Edu, os Felipe Neira...

O Renatinho!!!

O Renatinho... e fazer um dia de promoção. Esse dia não será pago e vamos fazer tantas baterias quantas forem necessárias. Essa é a idéia que eu tenho para a inauguração.

Esse quadro vai ser "paredal" ou eletrônico?

Tem duas coisas que eu infelizmente não vou inaugurar com elas. Uma é o placar na pista. Você vai passar na torre de controle de cronometragem e vai ter um placar que vai mostrar a posição dos 5 ou 6 primeiros, qual a volta você está, qual o tempo que você virou naquela volta, etc. Infelizmente não vai dar para ficar pronto para a inauguração, mas nós vamos colocar. A outra é o quadro eletrônico. Na verdade não será bem um quadro eletrônico...

Um monitor desses tipo de aeroporto...

Exatamente!!

Passando as voltas da corrida, os tempos de cada categoria...

Exatamente!! Você deu o exemplo exato: um monitor igual aos de aeroporto!! Na largada informará ao público o grid... depois a cada volta mostrará a classificação com tempos, etc. Outros monitores poderão informar os tempos do mês para cada categoria de peso, e por aí vai. Ainda não sei quantos monitores teremos e infelizmente também não teremos isso para a inauguração.

Beto, muito obrigado e boa sorte!!